Talvez a maior
dificuldade humana seja reconhecer o momento do adeus. Há uma constante
referência ao pertencimento como chave para os relacionamentos amorosos. Será que
o amor pressupõe apego, prisão? Acredito na volatilidade do passageiro, do
momentâneo. Há quem diga que viver de momentos é agregar experiências e, que,
no caso, essa seria a essência da vida. Porém, quantos momentos são necessários
para construir uma relação? Talvez, também, quantificar seja um erro na medida
em que não se pode determinar, em números, um sentimento, uma vivência, um
gostar.
Hoje eu não quero
falar de alguém. Quero falar de mim. Quero poder sentir meus pés tocando nessa areia
preta, úmida, recheada de energia pulsante. Quero sentir esse frio gelado no
rosto, esses raios de sol pouco presentes, essa paz da natureza. Quero entender
com essa sintonia, qual meu papel no universo. Sou um pontinho tão minúsculo
que, necessito, assim, me enxergar dentro desse emaranhado de sentimentos e
pensamentos. Há um eu escondido, mergulhado nessa imensidão de querer. Há ainda
um sentir que precisa ser respeitado, pautado na coerência com a positividade,
com a inquietude da mudança. Porém, quantos serão os segundos ou minutos a
serem destinado a esse trabalho de descoberta? Pessoas dizem que o trabalho
move a vida, move os dias e as pessoas em concomitância. Talvez por isso eu
diga: esse trabalho de descoberta requer constante envolvimento, e, algumas
vezes, toda uma existência.
Não sei se
conseguirei entender e amadurecer o meu eu um dia, entretanto, suponho olhar
para o redor e reconhecer que a cada passo, um pedaço de vida morre, e que chorar
ou sorrir precisa ser intensamente experimentado. A grande diferença, portanto,
entre aquele que vive e o que vive para morrer, é justamente reconhecer o
momento de parar e seguir. A lei física permite compreender que enquanto uma
força externa não atuar sobre um corpo, este ou permanecerá em movimento
contínuo, uniforme, ou continuará estagnado. Não permitamos que a estagnação
seja a regra. É necessário que o movimento continue, e ainda que alguma força
atue, há milhares de alternativas para se caminhar. As pernas, as muletas, as
cadeiras de rodas não são as melhores escolhas. É necessário pensar. A mente
progride. A mente processa. A mente caminha. Ela faz o mundo girar e os
impulsos surgirem. A maior dificuldade, o adeus, precisa surgir da mente, do querer
e do permitir.
A necessidade do
seguir se faz presente no momento em que se deseja. O nosso desejo deve ser
respeitado. Somos páginas de um caderno de pensamentos, basta reconhecermos se
nesse caderno estarão aquilo que nos fará sorrir e nos orgulhar futuramente, ou
se só o preencheremos de vazios. Acredito que alguém feliz é capaz de externar
a felicidade para todos ao redor, da mesma forma que alguém negativamente
pensante, sugará a energia do ambiente e tornará o clima pesado. Que possamos
ser pessoas leves, felizes. Quero sorrir e me encontrar no sorriso do outro.
Quero meus músculos faciais comandarem todas as minhas próximas ações. Quero
escutar o outro e perceber olhando nos espelhos da alma dele, aquilo que
realmente é, aquilo que realmente quer me mostrar. A voz deste, ruim ou não,
serena ou agitada, aguda ou grave, não atrapalhará na minha análise de áurea.
Há uma energia que caminha e que abraça seres afins, que cultiva bons fluidos
de pensamentos e que agrega pessoas simpáticas umas a outras. Dentro dessa
manobra energética, somos átomos que nos ligamos uns aos outros e nos permitimos
combinar de diferentes formas.
Nossos gostos são
esferas. Nossos desejos e quereres assim também são. É necessário reconhecer,
dentre tantas e tantas esferas alheias, aquelas das quais mais nos
identificamos. Dizer adeus não é dizer que as esferas de um são melhores do que
as de outro. Significa compreender o quanto nos conhecemos, nos respeitamos,
nos entendemos e nos permitimos seguir. É necessário aprender. Aprender sobre
si mesmo ao ponto de conseguir ensinar ao mundo sobre o que gostamos e sobre o
que viemos fazer: amar. É importante que o adeus exista, para que um novo olá
surja. É necessário dar espaço a paixão, ao gostar, ainda que sejam válvulas
propulsoras de sofrimentos. Apenas sofrendo se chega à conclusão do que foi
aproveitado. Precisa-se sofrer por completo e à medida que esse sentimento vai
acabando, um rastro de luz e de maturidade cresce dentro de nós. Somos,
sentimentalmente, como mudas de insetos. De tempos em tempo mudamos nossas
cascas, e no novo corpo de proteção nos fazemos crescer, até que precisemos
trocar novamente.
Ninguém é. Ninguém
deixa de ser. Estamos todos sendo. Estando. Construindo. Somente seres
construtivistas são capazes de utilizar as mudanças do meio para serem maiores
do que estão sendo. Maiores em responsabilidade, em caridade, em compaixão e
fraternidade. A harmonia surge no instante em que uns capacitados encontram
outros também capacitados. Capacitados para amar e caminharem juntos até que
todo o aprendizado seja compartilhado. Alguns caminharão até o final da
existência física. Outros necessitarão de outras harmonias, de outros
capacitados, de outro conjunto de esferas para crescerem. Estagnado será aquele
que não permitir que os raios entrem e encham o vazio de pulsão de mudança e de
prosseguir. Esbarrar é inevitável. Amar e sofrer assim também são. O importante
é acreditar que, em algum momento, em algum esbarrão, o aprendizado será
tamanho que nenhuma nova necessidade de esbarrar será capaz de estragar aquilo
que, junto, foi construído.
A vida é sim uma rua
cheia de pessoas. Vazias, chatas, ignorantes, amorosas, carinhosas,
especialmente esperançosas com o amor, ainda que tenham sofrido. Há uma
diferença gritante entre química e elo. Química, aquilo que necessariamente
seria único em cada ser, ainda que a sociedade e as imposições alheias o
moldem. Elo, a composição de quereres, partindo de seres diferentes, que
coincidem ou não sobre estarem caminhando lado a lado. Alguns esbarrões serão constituídos
apenas de Química, outros de Elo de apenas uma das partes, e apenas um dos
esbarrões será capaz de construir uma relação da qual se quer. A duração deste
é imprevisível, mas que seja eterno enquanto dure, e que dure o quanto for
interessante para ser eterno. Uma palavra dita na hora certa nunca é esquecida,
porém, palavras certas colocadas em ocasiões erradas, serão gotas de água
límpida jogadas em esgotos não tratados. Assim como palavras proferidas não
voltam e não se anulam, construções bem fortificadas não são desfeitas, ainda que
os construtores não estejam juntos na mesma edificação. É importante reconhecer
que algumas vezes simplesmente precisamos ir, caminhar, seguir. Há muitos
outros esbarrões para acontecer e muito outros sorrisos para sorrirem juntos,
também.
Hoje verei um sorriso
que irá me encantar. E antes que eu crie mil pensamentos a cerca do que poderá
se suceder depois deste, apenas o retribuirei e caminharei. Se houver a
possibilidade de esbarrão, esta se fará sem pressões. Isso porque os encontros
e desencontros são e precisam ser leves. Eles não precisam ser pedidos,
implorados, maquiavelicamente marcados. Eles acontecem. São pontinhos que se
ligam e que, quando linhas, se cruzam. O ponto de cruzamento é o esbarrão que
lhe causará não sei quais sentimentos, mas talvez mudará sua vida pra sempre.
Algumas vezes cheguei a questionar o pra sempre, mas se não considerarmos que
ele existe, provavelmente desconsideraremos que experiências nos constroem e tacharemos
que momentos são apenas vazios que se perdem pós término. O que vivemos hoje,
ainda que não lembremos depois, ainda é o que nos construiu, ainda é o que nos
faz estar vivos e sermos hoje o que somos.
Ainda que vivamos uma
febre do amor livre, como se este já não fosse liberto de amarras, faz-se
importante reconhecer o quanto um adeus pode ser o começo de um novo encontrar,
ou se próprio encontrar. Nunca entendemos porque tal pessoa não pode ficar
conosco. Fazemos planos impossíveis para aceitar atitudes que não julgamos
coerentes, para aprender com os erros alheios, para justificar ações que não
acreditamos corresponder com aquilo que buscamos para estar ao lado de outrem.
Quando há esforço, não há amor. Há quem diga que quando se ama é necessário
haver esforço, dedicação, porém, lhe digo: quando se verdadeiramente ama, nada
é esforço, nada é imposto, tudo é dado, é compartilhado, é leve, sereno,
completo. Quando se ama não há a necessidade de mil programações ou detalhes
que não podem deixar de ser ditos ou jamais abordados. Quando se ama apenas
acontece. Quando se quer, dá-se um jeito, quando não, ignora-se, há fuja, há
descaso. Não se tem um antídoto para o amor não correspondido, mas há um
caminho pós ele ocorrer: andar é sempre a melhor escolha. Têm muitos outros
esbarrões pela frente, alguns que farão sofrer até mais, até porque todos
julgam que o amor não correspondido de agora é muito mais forte do que o
anterior, mas na verdade só não conseguem enxergar que todos os outros já foram
superados.
Apenas queremos.
Porém, nunca aceitamos quando o outro não nos quer da mesma forma. Antes de
qualquer necessidade externa, é válido se auto-respeitar em concomitância com o
respeito ao outro. Ceifamos relações porque não sabemos estabelece-las.
Queremos do nosso modo, ao nosso gosto. As pessoas possuem escolhas próprias,
ainda que influenciadas por uma ou outra conjuntura, e essas escolhas podem não
corresponder as nossas expectativas. Dizer adeus permite que ambas sigam para
novas escolhas. Acreditar e aceitar que o fim de algo pode chegar antes da
morte é também se permitir.
A vida é sim um
corredor de sonhos. Passear por ela é descobrir gostos e amores. Aceitar o que
nos vem como forma de fortificação é uma tarefa constante e trabalhosa. Um dia,
ao esbarrar com um sorriso, mergulharei nessa alma, sentirei tua essência nas
palavras, no olhar. Caminharei até o mar, depositarei minhas expectativas para
que as ondas decidam o que vem e o que vai. É nesse movimento que aceitarei
sorrir e chorar, seja por qual motivo for. E no final, tudo será bom, e mesmo
que não reconheçamos isso diante do final imediato, já haverá terminado mesmo,
então apenas o aprendizado será levado, carregando, independente de queremos ou
não. E todo término pressupõe uma continuação. Essa vivência é construída de
infinitos pontos continuativos. Há sempre uma pequena pausa antes de uma grande
história. Reconhecer essa pausa para se auto avaliar será fundamental para
novos romances e encontros de almas afins. Que se acheguem essas almas afins, e
que brotem quantos amores forem necessários para o final do meu livro de
pensamentos. Ainda não sei de quantos momentos serão necessários para cada uma
das minhas relações, entretanto, fico feliz por aceitar que serão muito bem
aproveitados enquanto durarem. Obrigado, universo.